segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Inverno...

... desisto !
Friorenta desesperada,
cansada de geadas matinais,
chuvas tardias e tosses noturnas,
procura URSO compatível para hibernação.
Promete-se pijama à altura, ressonar baixinho e simpático despertar.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A morte e os impostos

A morte e os impostos
por Daniel Oliveira


"Nos arredores de Lisboa, Augusta, que teria hoje 96 anos, morreu sem ninguém dar por nada. Nem família, nem amigos, nem serviços públicos.

Uma vizinha, e penas ela, bateu a todas as portas que pôde, por estranhar a sua ausência. Da família, da GNR, de todos, apenas a indiferença. Nem a segurança social, nem os serviços de saúde. Ninguém.

Era apenas uma velha num prédio de uns subúrbios. Passou oito anos a bater a portas. A burocracia impediu que alguém fizesse alguma coisa. A porta não podia ser arrombada. A GNR até gozou com a preocupação da vizinha. Coisas de velhos, terão pensado.

Mas Augusta, cidadã portuguesa, era também contribuinte. E aí deram por falta dela. Tinha uma dívida. Sem um único contacto, a frieza da máquina leiloou o seu apartamento. Quando os novos donos chegaram, a porta foi finalmente arrombada.
E lá estava Augusta, morta no chão da cozinha.

Tinha morrido há oito anos sem que ninguém tivesse dado ouvidos à vizinha.

O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano.

Que o contribuinte exista, mas o cidadão não.

Que quem tinha a obrigação de pagar impostos tenha deixado de existir nos seus direitos. A metáfora é macabra. Mas é poderosa. Este Estado que não se esquece - não se deve esquecer - de nós quando é cobrador, mas para quem não existimos quando nos é devida alguma atenção.

Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos.

Parece que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira."

Artigo publicado no Expresso Online


* A casa foi vendida por 30 000€ para pagar uma divida de menos de 1500€