domingo, 1 de fevereiro de 2009

Estranhas vidas as nossas
















Procuro-te


Procuro a ternura súbita,

os olhos ou o sol por nascer

do tamanho do mundo,

o sangue que nenhuma espada viu,

o ar onde a respiração é doce,

um pássaro no bosque

com a forma de um grito de alegria.


Oh, a carícia da terra,

a juventude suspensa,

a fugidia voz da água entre o azul do prado

e de um corpo estendido.


Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.

Chamo por ti, e o teu nome ilumina

as coisas mais simples:

o pão e a água,

a cama e a mesa,

os pequenos e dóceis animais,

onde também quero que chegue

o meu canto e a manhã de maio.


Um pássaro e um navio são a mesma coisa

quando te procuro de rosto cravado na luz.

Eu sei que há diferenças,

mas não quando se ama,

não quando apertamos contra o peito

uma flor ávida de orvalho.


Ter só dedos e dentes é muito triste:

dedos para amortalhar crianças,

dentes para roer a solidão,

enquanto o verão pinta de azul o céu

e o mar é devassado pelas estrelas.


Porém eu procuro-te.

Antes que a morte se aproxime, procuro-te.

Nas ruas, nos barcos,

na cama, com amor, com ódio,

ao sol, à chuva, de noite, de dia,

triste, alegre — procuro-te.


Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

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