quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lenda Judaica

Dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.

Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno. Até que um dia, chegou a grande colheita. Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos.

E assim, cada um seguiu o seu rumo. À noite, já no leito, cansado da brava lida daqueles últimos dias, um deles pensou:

- "Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice. Eles me ajudarão no fim da minha vida. O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo. Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu".

Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.

Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando:

- "Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar. As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter".

Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro. O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.

Na estrada escura e nebulosa daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente. Olharam-se espantados. Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.

“Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro”.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um lugar comum...

Dióspiros

Gosto tanto... docinhos
Este não é meu... é da minha vizinha
O que não me impede de o namorar, de pestanejar...
Docinho... comido à colher
Também é por eles que gosto do Outono

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma história, como muitas outras...

Bolo-Rei


Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.

De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista engomada, cheias de silêncios e reverências.

Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar-se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora.

Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas, pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o brilho dos copos de cristal.

Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à distribuição nos pratinhos de sobremesa.

— Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem!

E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado do paladar, se comeu a sobremesa.

A prenda calhou à criada.

— Que sorte! Mostre lá!

— Olhe que medalha tão bonita! Parece uma libra de verdade. Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica.

— E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo?

— Come que está bom e fofinho!

Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em negativas.

— Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras: queres mais um bocadinho de bolo?

— Ao menos acaba esse!

— Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá.

Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe. Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando!

Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão.

— Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu?

— Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é?

Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada, ralha:

— Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te tenho dado? Se o teu pai fosse vivo…

Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz, a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez:

— É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele.

E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia, quente ainda, do esconderijo em que estivera.

E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo, sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que a mãe o aconchegou junto de si.

Sem palavras, mãe.

Sem palavras.



Maria Rosa Colaço

Viagem com Homem dentro (adaptação)

Leiria, Editorial Diferença, 1998

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Outono


No outro dia comentava com um amigo o quanto gostava do outono... das cores, do solinho quente nos dias de frio... e ele respondia-me "não gosto das cores, são tristes"... não é por serem tristes que são menos bonitas.



domingo, 31 de outubro de 2010

Viagens

Pela Cantábria...







domingo, 24 de outubro de 2010

Decididamente...

Este tempo já não me agrada. Apesar dos dias até estarem soalheiros, com temperaturas agradáveis, já não gosto!
Onde estão os dias de 40º? Desses é que eu gosto!
Sim eu sei, sou uma verdadeira adoradora do astro Rei.
Gosto do calor! De ver as ondas que se libertam da terra, do asfalto...o bafo quente...as esplanadas ao fim da tarde, a cerveja fresquinha!!!
Mas agora vou ter de esperar outra vez 8 longos meses :(
agarrada ao calor artficial do meu aquecedor...tristeza!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A verdade dos provérbios (1)

''O maior lutador é aquele que não luta à menor provocação, pois compreende que muitas vezes seu adversário o desafia por sentir-se diminuído em sua presença"

Provérbio Chinês

domingo, 3 de outubro de 2010

Notícias antigas - 2

Porque é que há coisas que nunca mudam???

Mais uma das notícias do século passado:

"D.N. 27.02.1931

PROBLEMAS NA ARBITRAGEM
A liga dos árbitros anda em maré de desatino. Entendeu outro dia castigar dois dos seus membros, por faltas evidentes de arbitragem e erros indesculpáveis (...) Moveram-se no entanto influências de vários campos onde impera não um sentido de justiça mas de conveniência e o resultado está bem visivel. A liga teve de retroceder deu o dito por não dito, e veio tomar uma resolução mais estranha do que se podia esperar. Levantando a suspensão ao sr. Alexandrino Santos que seja dito em homenagem à verdade se havia tornado merecedor de um castigo adequado aos deslizes cometidos com estranhável frequência em alguns."

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Notícias antigas - 1

Com o Jornal DN têm vindo a saír uma série de pequenos suplementos dedicados à República (sim, essa que tantas dores de cabeça nos tem trazido nos últimos tempos...). Confesso que não lhes tenho dado a devida atenção...olho para eles, vejo as fotografias, mas raramente leio os textos.
Mas hoje, como estava à espera de uma pessoa (e para mim não há nada pior do que estar à espera e não ter nada para me entreter), peguei num que tinha no carro...


Afinal "As Estórias nunca contadas pela História" têm algumas pequenas notícias dignas de serem reproduzidas.
Esta que coloco hoje, atendendo ao Estado da Nação, é deveras interessante:


"DN 28.01.1948
A FORÇA DO ESCUDO
Mencionado a seguir ao dólar, consagra a posição firme da divisa portuguesa - diz-se nos meios britânicos. O facto de só o dólar americano e o escudo terem sido mencionados no comunicado oficial françês como podendo ser transaccionados no mercado livre de divisas, provoca grande interesse nos circuitos financeiros britânicos. (...) Com efeito, o escudo é uma das divisas que toma lugar imediato ao do dólar nas listas das divisas fortes, tanto em França como na Inglaterra (...) É assim que, para a Inglaterra, o escudo é uma moeda forte porque a Inglaterra tem uma balança comercial desfavorável em relação a Portugal"

Como diria o nosso Fernando Pessa "E esta, hem?"

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Outonosss...




















Não há nada a fazer, chegou o Outono, os dias estão a ficar mais pequenos e o Sol...
O Sol que nos aquece começa a afastar-se e, a cada dia que passa, o frio entranha-se cada vez mais.
Decididamente eu gostava de ser um pássaro e estar agora a voar para Sul...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Escuta as vozes da terra

Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito.

Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, eu fazia imensas perguntas:

― Avô, porque é…?

― O que se passaria se…?

― Será que às vezes…?

Um dia, perguntei:

― Avô, o que é uma oração?

O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta:

― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores?

Pus-me à escuta, atento, mas foi em vão.

― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu.

Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou:

― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade.

Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso. Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar.

― Avô, os ribeiros também murmuram?

― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça… Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair…Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras. Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na b eleza do mundo…

Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens. O meu avô sorriu e passou-me a mão pelos cabelos. Respondeu:

― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Pode-se passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de expressão, de linguagem…. Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração.

Passado algum tempo, o meu avô disse que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta:

― Será que há respostas para as nossas orações?

Sorriu.

― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo.

Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi. Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio. Sentia-me muito só.

Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o marulho da água.

Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente:

― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô!

Foi então que algo aconteceu.

Senti – outra vez – o meu avô perto de mim…

E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito.



Douglas Wood
Grandad’s Prayers of the Earth
Paris, Gründ, 2000
(Tradução e adaptação)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Férias

Bem, ir de férias implica algumas escolhas antes...



... quase de férias !


Caramulo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Museu do Côa.

Gostei muito...
Exteriores que se fundem na paisagem...
Tecnologia que apela à interactividade...
Uma paisagem... que nos tira a respiração...
Valeu a espera...




quinta-feira, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Vidas...

Vividas na palma da mão...





segunda-feira, 14 de junho de 2010

Conto: "Da erva à árvore"

Eram dunas e dunas, a perder de vista. Montes de areia para o vento brincar...
Hoje, fazia uma duna maior aqui, amanhã apagava-a, para fazê-la mais além e, sempre segundo os seus caprichos, onde estavam montes, cavava vales, onde estavam vales, amoldava montes. O vento era uma vassoura enorme.
Cabeleiras dóceis de ervinhas rasteiras deixavam-se pentear, despentear, ao sabor do vento gigante. Ele é que mandava.
Uma delas, à beira de um tojo só picos, cresceu. Delgadinha que era arriscou-se à vida. Rompera a areia e apontava para cima. Ela lá sabia.
De dentes a ranger, o vento passou. Partiu-se o tronquinho? Não se partiu. Fincava as raízes, segurava-se com toda a força e, quando o vento descia, inclinava-se à vontade dele. Tinha de ser assim.
Lá se foi aguentando. O vento, a princípio, nem dava por ela. Era uma erva como as outras. Senhor daquelas dunas, o que ele queria era disciplina, ordem, submissão. A erva, que erva afinal não era, submetia-se. Óptimo.
Foi crescendo e o vento sem dar por ela. Era um tronco já, uma arvorezinha de Natal para casa de bonecas. Outras ervinhas como, dantes, ela tinha sido, despontavam também, na mesma duna.
Ali havia uma pequena nação de pinheiros novos. A ordem era: persistir. Por enquanto, persistir. Resistir, seria para depois. E foram vingando.
E quando o vento deu por eles, teve uma grande cólera e soprou, dias a fio, sobre a duna, donde nascia, miudamente, frágil ainda, um sinal de rebeldia ao seu poder. Nada conseguiu. Os pinheiros sabiam que eram pinheiros. Tinham raça e coragem para fazer frente ao vento.
Uns e outros, os maiores e os mais pequenos, começaram a olhar para a sombra.
Alastravam para outras dunas. Guerreiros chamavam por outros guerreiros e desafiavam o vento. “Nada podes contra nós”, gritavam-lhe.
O maior, o chefe, o mais velho, que da erva se fez tronco, do tronco se fez árvore, comandava a defesa e dizia aos mais novos, nas alturas em que o vento lhes fazia ranger os ramos: “Aguentem, que já passámos por pior”.
Eles aguentavam.
E foi assim que o vento, o gigante caprichoso que dantes arrasava dunas, teve de deixar de fazer castelos na areia.

António Torrado
Adaptação

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Lição da Paciência

Um mandarim que se preparava para desempenhar um importante cargo oficial recebeu a visita de um amigo que lhe foi apresentar as despedidas.

Abraçaram-se e o amigo recomendou-lhe:

— Acima de tudo, no desempenho das tuas importantes funções, nunca percas a paciência.

Prometeu o mandarim que nunca esqueceria este precioso conselho.

Três vezes repetiu o amigo a mesma recomendação, provocando o enfado do mandarim. Quando se preparava para o fazer pela quarta vez, o mandarim exaltou-se e gritou:

— Basta, eu não sou surdo e muito menos sou um imbecil!

Então o amigo, acalmando-o com a mão posta sobre o seu ombro, fez este comentário:

— Podes assim ver como é importante ser paciente. Três vezes ouviste o meu conselho, já não conseguindo dissimular o enfado. À quarta vez não conseguiste controlar a fúria. O que acontecerá quando, no desempenho do teu cargo, tiveres de ser verdadeiramente paciente?

O amigo baixou os olhos para o chão e limitou-se a suspirar.

J. J. Letria, Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Os Ex-Votos




































Os Ex-votos eram relativamente comuns antigamente. Hoje raras são as Igrejas que ainda os conservam, pelo menos em local visível.
Trata-se do pagamento de promessas ou, simplesmente, de agradecimento e podem ser pinturas ou figuras (cera, madeira) de partes do corpo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Amigos...























A morte de um ser humano deve ser, sempre, motivo de tristeza.
A morte de um amigo, na flor da idade, cheio de projectos para o futuro...é uma perda irreparável.
Ontem morreu um amigo nosso...
Todas as palavras que possamos dizer são pouco expressivas, pouco qualificativas para o descrever (e não é por estar agora morto...)
Devemo-lhes, as duas, muitos conselhos, muitas horas de trabalho (em que deixou o seu para ajudar no nosso...), muitas horas de alegre e salutar convívio...
Diz a tradição popular que Deus chama os que mais ama...neste caso, acho que é verdade.
Adeus amigo, até um dia...
Sit tibi terra levis

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Histórias antigas...

Esta é uma das que me lembro de me contarem em pequena...

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água
Era uma vez uma rapariga casada que se dava muito mal com o marido porque tudo na casa estava sempre desarrumado e, por mais que ela cirandasse de um lado para o outro, parecia que o tempo nunca lhe chegava para nada!


Lá em casa, a vida começou mesmo a ser insuportável, com o marido sempre a queixar-se e até a ralhar-lhe a todo o instante, e ela a andar cada vez mais triste, sem saber o que fazer à vida.

Tinha, ao lado, uma vizinha que era já velhota, mas muito simpática. Havia quem dissesse que as Fadas eram amigas dela e a ajudavam quando ela mais precisava. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água.

Um dia foi bater-lhe à porta, e disse-lhe:

− Ai, Tia! Vossemecê é que me podia valer nesta aflição.

− Pois sim, filha! Eu tenho dez anõezinhos muito habilidosos, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.

E a velhota explicou‑lhe o que devia fazer para os anõezinhos a ajudarem melhor: pela manhã, quando se levantasse, fizesse a cama e acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, passasse a roupa, preparasse o que havia de cozinhar para o jantar... pois assim havia de ver como em tudo ela havia de ser muito ajudada pelos anõezinhos, sem o sentir...

A rapariga assim fez e, se bem o cumpriu, melhor lhe saiu: o marido passou a andar muito contente e ela cada vez mais feliz. A casa, essa então nem parecia a mesma, tão arrumadinha! Resolveu um dia ir agradecer à sua vizinha:

− Ai, Tia Verde-Água, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição! Agora a casa está muito arranjada, e nós estamos muito felizes. O que eu lhe pedia ainda é que mos deixasse lá ficar.

A velhinha respondeu-lhe:

− Deixo, deixo. Pois tu não viste os dez anõezinhos?

− Ainda não. O que eu mais queria era vê-los.

− Não sejas tola! Se os quiseres ver, olha para as tuas mãos. Os teus dedos é que são os dez anõezinhos!

Quando a Tia Verde-Água lhe disse isto, a rapariga percebeu o que lhe estava a acontecer, agradeceu muito à Tia Verde-Água e foi para casa muito contente por ter aprendido como é que se faz luzir o trabalho.

Maria Alberta Menéres - 100 Histórias de todos os tempos, Porto, Ed. Asa, 2003

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pais e filhos...para ler e refletir nos tempos que correm.

Os pais têm de recuperar a autoridade perdida e deixarem de querer agradar aos filhos, ou o mundo estará perdido, afirma um dos mais famosos pediatras do mundo. Fomos saber porquê.


De Catarina Fonseca/in:  Revista ACTIVA
10 Fev. 2010

Confesso que ia um bocado amedrontada. Afinal, ia entrevistar um dos homens responsáveis por um dos maiores escândalos educativos das últimas décadas, o homem que defendera a urgência do regresso ao poder dos pais contra os todo-poderosos filhos.

Acusado de tudo, de fascista para baixo, o pediatra líbio-francês Aldo Naouri diz que os pais se demitiram do seu papel de educadores e em vez disso se dedicam a satisfazer a criança, com o único desejo de se fazerem amar. Diz que confundimos frustração com privação. Diz que transmitimos à criança que não só pode ter tudo como tem direito a tudo, içando-a ao topo do edifício familiar, onde ela nunca esteve e onde nunca deveria estar. Diz que um filho hoje não é criado para se tornar ele próprio, mas para gratificar e servir o narcisismo dos pais. Diz que estamos perante uma epidemia que encoraja os pais a seduzirem as crianças, tornando-as assim em seres obsessivos, inseguros, amorfos e emocionalmente ineptos, que não sabem gerir as suas pulsões e são incapazes de encontrar o seu lugar no mundo.

Em resumo, esperava alguém mais parecido com o Deus do Velho Testamento, que me recebesse com raios e coriscos, ou pelo menos uma praga de gafanhotos. Em vez disso, recebeu-me com um sorriso só equivalente ao sol de Lisboa, agarrou-me na mão, perguntou-me por que é que não tinha filhos e assegurou-me que os homens são todos uns egoístas. "Portanto, madame, é só escolher um! são todos iguais!"

Por entre gargalhadas, falou-se de coisas muito sérias, como aquilo que andamos a fazer às crianças. Ora leiam.

- Então, nada de democracia para as crianças?

- Não. E fundamental que estejam numa relação vertical: os pais em cima, as crianças em baixo. Porque há uma diferença entre educar e criar. Criar é dar-lhe os cuidados básicos, dar-lhe banho, alimenta-lo, etc. E como criar galinhas. Educar é haver qualquer coisa que não existe e que é preciso formar. Por isso a criança não esta nunca ao mesmo nível dos pais, não pode haver uma relação horizontal. Se quiser compreender o que se passa na cabeça de uma criança numa relação horizontal, imagine o seguinte: você esta num avião, e o comandante vem sentar-se ao seu lado. Você pergunta, Mas quem é que esta a guiar o avião? E ele diz, 'Ah, é um passageiro da primeira fila que eu pus no meu lugar. ‘ A criança tem necessidade de alguém acima dela.

- As mães não se escandalizam com a mudança de hábitos que lhes aconselha?

- Nada disso. As mães estão petrificadas na sua angustia e precisam de se libertar. Eu digo, 'mas não vale a pena angustiarem-se dessa maneira, ser mãe é muito mais simples do que vocês pensam'. Digo-lhes que não vale a pena viverem preocupadas porque a criança não come, não dorme, ou vai ter ciúmes do irmão. Dou-lhes conselhos básicos e fáceis de seguir e tento fazer com que simplifiquem a máximo as suas vidas. O que eu quero é que a criança seja para os pais uma fonte de prazer e felicidade, e não um foco de sofrimento e angustia, e para que isso aconteça, os pais têm de estar descontraídos.

- As nossas avos não viviam nessa angústia...

- Pois não. Mas viviam num mundo em que havia três tipos de ordem: Deus, Rei e pai. Esse tipo de ordem fazia com que existisse qualquer coisa que as transcendia. Hoje todo o tipo de transcendência desapareceu, e quem ficou no lugar de Deus? A criança. As mães que põem o filho nesse altar, eu simplifico a tarefa: digo - Não se cansem dessa maneira. Não se preocupem assim. Ponham-se a vocês próprias em primeiro lugar. Claro que não é uma coisa que elas estejam habituadas a fazer, ou sequer a ouvir, mas não é por isso que não podemos dizer-lhes, e não é por isso que elas vão deixar de ser capazes de o fazer. Acredito que vão ser capazes, porque é urgente: a bem das crianças, e a bem delas próprias. E preciso fazer as coisas de maneira tranquila, porque a mãe perfeita não existe, o pai perfeito não existe, a criança perfeita não existe.

- Mas as mães hoje têm uma vida tão difícil, é normal que se culpabilizem...

- Não é por trabalharem fora de casa que têm de se sentir culpadas.

Peço às mães: lembrem-se do vosso primeiro amor. Quando não o viam durante três dias, morriam de saudades. Mas quando o voltavam a ver, assim que batiam os olhos nele era como se nunca se tivessem separado. Com as crianças, é exactamente igual. Quando tornam a encontrar a mãe, é como se ela nunca tivesse partido.

- Diz que os pais esqueceram o seu papel de educadores porque querem ser amados pelas crianças. Por que é que isto acontece?

- Como todas as crianças, tiveram conflitos com os pais. E como todas as crianças, amam-nos mas guardaram muitos ressentimentos. E não querem que os seus filhos tenham esse tipo de ressentimento em relação a eles. E pensam que a melhor maneira de o fazer é seduzir a criança para que ela o ame. O que é um enorme erro. Porque nesse momento, a relação vertical inverte-se. A hierarquia fica de pernas para o ar, e quando isso acontece, destruímos a crianças.

- O problema é que as pessoas confundem autoridade com violência. Autoridade é fazer-se obedecer, não é dar uma palmada, que o senhor alias desaprova.

- Completamente! Não aprovo palmadas de que género for, nem na mão nem no rabo. Ter autoridade não é agredir a criança. Ter autoridade é dizer: 'Quero isto', e esperar ser obedecido. Quero que faças isto porque eu disse, e pronto. Autoridade é só isto, é assumir o seu dever. Não vale a pena ser violento, alias porque a criança sente a autoridade. E quando o pai ou a mãe não esta seguro do seu poder que a criança tenta ir mais longe. Quando há uma decisão que é assumida pelos pais, ela cumpre-a.

- Uma terapeuta de casal dizia que as pessoas hoje não têm falta de erotismo, dirigem-no é todo para as crianças...

- Sem duvida. E é isso que é urgente mudar. O slogan 'a criança acima de tudo' deve ser substituído por 'o casal acima de tudo'. A saúde física e psíquica das crianças fabrica-se na cama dos pais. Por que isso não acontece é que há tantos divórcios, e depois a vida torna-se muito mais complicada para a mãe, o pai e a criança. Se elas decidem privilegiar a relação de casal, estão a proteger a criança.

- Educou os seus filhos da forma que defende?

- Sim sim, eu eduquei os meus três filhos tranquilamente. A autoridade significa serenidade, não violência. Ainda hoje, que eles já são mais do que adultos, nos reunimos às vezes para jantar. E no outro dia, falamos sobre as viagens de carro que costumávamos fazer - sempre viajei muito com eles. Quando se portavam mal, eu virava-me para trás e dizia: - Olhem que eu paro o carro e deixo-vos a todos aqui na auto-estrada! - Só há pouco tempo é que percebi que eles achavam que eu estava a falar a sério e que seria capaz de os abandonar na estrada! (ri). Tal é a força da autoridade. Mas isso não tem importância, o importante é que funcionava! (ri)

- Diz que o pai tem de ser egoísta mas também diz que uma das tragédias do mundo moderno é a ausência do pai... Qual é então o papel do pai, para lá de ser egoísta?

- Tem duas funções: a primeira é a de possibilitar à mãe o exercício da sua feminilidade. A segunda é a de se oferecer ao filho ou filha como um escudo contra a invasão da mãe. Porque de outra maneira, a mãe vai tecer à volta do seu filho um útero virtual, extensível até ao infinito. O pai não esta presente como a mãe, mas é preciso que esteja presente.

- Mas hoje exige-se aos pais que façam uma data de coisas, que mudem fraldas, que ponham a arrotar, que ensinem karaté...

- Não é preciso. Porque na cabeça das crianças tudo esta muito claro: aquela que o filho ama acima de tudo é a mãe, que sempre respondeu às suas necessidades desde que estava na sua barriga. Se alguém lhe diz 'não', mesmo que seja a mãe, para ele a culpa é do pai. Ou quando muito, da não-mãe. No inconsciente de uma criança, o pai não existe. Só há a mãe. O pai tem de se construir, a bem das crianças e a bem da mãe delas.

- Antes de ler este livro não tinha consciência de que as crianças estavam tão perturbadas.

- Li um artigo recentemente do director do centro médico-pedagógico de Paris, que afirmava que em 2008 tinha recebido 394 novas famílias, e que a maior parte tinham problemas psicológicos. No fim da primária, 40% dos alunos ainda não dominam a língua, e isto é grave. E não porque tenham problemas físicos ou sejam burros: é porque não os sabemos educar. Mas é uma tarefa difícil, porque mesmo as instâncias governativas vão no sentido de seduzir a criança. Porque as crianças vendem, são um produto que se compra e se compara. Todo o mundo vai no sentido de deixar a criança fazer o que quer, porque é mais fácil que ela não cresça. Mas o que vai acontecer é que essas crianças, se não travadas, vão crescer e fabricar sociedades absolutamente abdomináveis, onde será cada um por si, onde não haverá solidariedade.

- Nem cientistas... E o senhor quem o diz...

- (ri). Apesar de tudo, estou optimista. As pessoas querem saber como podem mudar. Não sou o único a dizer estas coisas, mas digo-as de forma bruta. Tenho 40 anos de experiência com pais e crianças. E é muito fácil mudar, quando começamos a ver a lógica das coisas. Além disso, o que eu pretendo é simplificar a vida das pessoas. Não quero voltar àquilo que se fazia há um século. Não quero pais castradores.

- O que é um pai castrador?

- Não é um pai autoritário, é um pai fraco, intranquilo, desconfortável na sua pele e na sua posição. O que eu digo é, a sua posição como pai ou mãe esta assegurada à partida. Só tem de exercê-lá. Uma vez, apareceu-me uma mãe muito alarmada porque a filha não dormia. Aconselhei-a a dizer à criança, antes de dormir: 'Podes dormir tranquila. Não preciso mais de ti hoje.' E a criança dormiu a noite toda. Por isso eu digo no fim das consultas, a todas as crianças, tenham elas 1, 7 ou 14 anos, 'Muito obrigado por me teres trazido os teus pais à consulta. Agora podes ficar descansado, eu ocupo-me deles.'

O QUE DEVEMOS FAZER...

Palavra de ordem: não compliquem.

Segundo Aldo Naouri, o esterilizador de biberões não faz sentido, nem desinfectar o mamilo.

- Os biberões devem lavar-se com água quente da torneira.

- As nádegas do bebé devem ser lavadas com água e sabão.

- A roupa do bebé pode ser enfiada na máquina como o resto da roupa de casa.

- Em todas as idades, devem tomar-se as refeições familiares em conjunto.

- Um adolescente pode ir vestido da maneira que bem entender.

- Petiscar, no caso de um adolescente, não é de condenar, porque precisam de imensas calorias.

E O QUE NÃO DEVEMOS...

- Rituais antes de dormir, como a historia ou a cantiga, é para irem à vida. Só servem para ritualizar o medo da criança. Deve-se mandar a criança para o quarto, e ai ela fará o que quiser com o seu tempo.

- Angustiar-nos com as horas de sono. E absolutamente necessário livrarmo-nos da obsessão do número de horas que eles dormem.

- Nunca, em circunstância alguma, se deve obrigar uma criança a comer.

- Biberão, chupeta e objectos de transição devem desaparecer antes do fim do segundo ano da criança.

- Bater nunca: nem na mão nem no rabo.

- Elogiar, só para coisas excepcionais.

- A criança não deve escolher a sua roupa.

- Uma ordem não tem de ser explicada, tem de ser executada. A explicação que é dada ao mesmo tempo que a ordem apaga a hierarquia. Se quiser explicar, só depois da ordem cumprida. A figura parental nunca, mas nunca, tem de se justificar perante o filho.

Para ler: 'Educar os Filhos', Aldo Naouri, Livros d'Hoje

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Religiosidades...



Em tempo de reflexão... exemplos de religiosidade no Portugal profundo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Peregrinos da vida...

Mês de Maio é sinónimo de peregrinos...os de Fátima, os de Santiago de Compostela... na realidade todos nós somos peregrinos, nesta vida.
Uns com objectivos, com sonhos...outros perderam-nos algures numa curva dum caminho, esqueceram-se que o sonho é uma constante da vida...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Músicas

músicas que nos retratam muito bem...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O CAMPO DE GIRASSÓIS

O campo de girassóis estendia-se pela planície; ali cresciam girassóis grandes, pequenos e muito pequenos, plantas de todos os tamanhos. Logo de manhã, levantavam as cabeças e punham-se a olhar para o Sol; e, durante todo o dia, as cabecinhas pasmadas dos girassóis seguiam o movimento do Sol desde que nascia até que se escondia. Quando deixavam de o ver, as cabeças dos girassóis caíam como se não pudessem com tanta tristeza. Todos os dias era aquele bailado de flores seguindo o Sol.


Um girassol, dos tais muito pequeninos, crescia devagar, escondido, encoberto pelos outros. Esse não olhava o Sol; como era muito pequeno, quando os grandes levantavam a cabeça para ver o Sol, ele não via nada: tudo ficava tapado pelas cabeças grandes dos girassóis grandes; portanto, como ele não via o Sol, não havia razão para virar a cabeça como os outros faziam; ficava a olhar para o chão, a ver as formigas e as ervas rasteiras. Por cima dele era um tecto de flores amarelas por onde não passava um único raio de sol. À noite, quando os outros baixavam a cabeça, o girassol muito pequeno podia então ver o céu. O brilho das estrelas deixava-o encantado e dizia: «Tantos sóis! Tantos sóis!» E ficava toda a noite a seguir as estrelas como os outros seguiam o Sol.

Certa manhã, as nuvens cobriram o céu e os girassóis grandes deixaram de ver o Sol; todos se queixaram e as pesadas cabeças inclinaram-se para o chão, privadas do chamamento dos raios do Sol. Como olhavam para baixo, viram o girassol muito pequeno que nem sabia o que era o Sol e não entendia as queixas dos girassóis grandes.

Mas à noite, as estrelas também não apareceram e o girassol muito pequeno sentiu-se triste. Agora já entendia os queixumes dos girassóis grandes, daqueles que olhavam e seguiam o caminho do Sol. Na manhã seguinte, o céu estava ainda encoberto e os raios do Sol não vinham chamar os girassóis para a dança habitual e as grandes cabeças amarelas sentiam-se perdidas sem saberem para onde se virar. Então o girassol muito pequeno falou aos grandes daqueles muitos sóis que ele seguia de noite; e os grandes falaram do Sol quente que seguiam de dia.

— Nunca o vi — dizia o girassol muito pe­queno. — Nem sei como é! As vossas cabeças tapam o céu e de dia só posso olhar o chão, as ervas e os animais que se movem a nossos pés.

Os grandes girassóis sentiram-se envergonhados; na sua adoração pelo Sol, não deixavam que um irmão mais pequeno conhecesse aquele que comandava os seus movimentos!

— Vamos deixar-te espaço para que vejas o Sol — prometeram eles. — Mas de noite queremos também olhar esses teus sóis pequeninos.

Quando as nuvens se desfizeram e as estrelas voltaram a brilhar, todos viram o céu estrelado. Na manhã seguinte, os girassóis grandes afastaram-se um pouco; então o girassol muito pequeno viu o Sol e o movimento da sua cabeça deslumbrada acompanhou-o todo o dia.

— Que dizes tu do nosso Sol? — quiseram saber os girassóis grandes. — Não te parece que é lindo?

— Sim, é lindo — respondeu o girassol muito pequeno, ainda estonteado pela luz do Sol. — Mas os meus sóis pequeninos também são lindos! Vou olhar o Sol de dia e as estrelas de noite.

É por isso que no tal campo de girassóis há um girassol muito pequeno que olha para o céu de dia, para ver o Sol, e de noite, para admirar as estrelas.



Natércia Rocha. In: Castelos de areia.
Venda Nova, Bertrand Editora, 1995

domingo, 18 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Guimarães




Nesta Páscoa... fomos até Guimarães.
Vale a pena, não por ser o berço de Portugal, mas por ser bonito, por se repirar tradição... pelas suas se ouvir um sotaque sem igual, numa curiosa fusão entre o antigo e o moderno...



A Páscoa II...

... chegou com a Primavera !

domingo, 4 de abril de 2010

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Amiga








































A algumas das pessoas importantes da minha vida,
pelo dia de hoje...
pelo que representam para mim...

A um Amigo


Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.

Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quarta-feira, 24 de março de 2010

O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!
 
Mário de Andrade

domingo, 21 de março de 2010

Prima Vera

Timidamente, com medo de se impôr (por enquanto...) em todo o seu esplendor, eis que chegou, enfim, a PRIMAVERA.